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Madrugada, voltando de um povoado, solitário no banco traseiro do táxi, o padre reza buscando o estado meditativo que lhe esvaziaria a mente, mas seus tormentos resistem à monotonia das ave-marias. Procura distrair-se lendo um romance e não consegue, aproveita o e-reader ligado para folhear revistas eletrônicas. Ao se deparar com um anúncio de livros impressos em papel, indaga-se: “Que excêntrico compraria tais raridades?” Surge um aviso de vídeochamada na tela. Não atende. Era ela. Continua percorrendo publicações a esmo até que uma ilustração para o artigo Darwinian Legacy to Psychology desperta seu interesse. Gosta do que lê. Percebe que o nome do autor é sensível a comando de voz e chama por ele. Aparece um sujeito de meia-idade que, em inglês, fala de si e de sua motivação para escrever, apenas o suficiente para confirmar a boa impressão deixada pelo artigo.
Para surpresa do padre, o consultório do articulista, que podia ser em qualquer lugar do mundo, é próximo de sua casa.
— O que o trouxe a mim? — pergunta o terapeuta, após cumprimentos e apresentações.
― Posso fazer algumas considerações preliminares?
— Esteja à vontade.
― Não conheci meu pai. Ainda menino entrei para o seminário porque foi o modo que minha mãe encontrou para eu estudar. Fiz doutorado na Universidade do Vaticano, seguindo aulas por teleconferência e consultando remotamente documentos digitalizados. Como de praxe, poderia ter elaborado e defendido minha tese à distância, mas fui agraciado com uma permissão papal para fazê-lo in loco, o que me possibilitou conhecer o Vaticano, Roma e a Europa toda. Devo tudo que sou à Igreja. Ela me deu cultura e me dá casa, comida, roupa lavada e projeção social. Em retribuição, enfrento suas dificuldades com entusiasmo. E não são poucas: nas últimas décadas o catolicismo perdeu quase cinqüenta por cento dos fiéis, principalmente para as novas denominações evangélicas e para o agnosticismo. Minguam as vocações sacerdotais, somos apenas três padres para a paróquia de Porto Seguro, que atualmente compreende toda a região: Cabrália, Arraial, Trancoso, etc. Eu me desdobro.
― Meu drama começou quando, depois de celebrar missa em um povoado, fui supervisionar uma preparação para Primeira Comunhão Eucarística. Como sempre, sentei-me no fundo da sala observando o trabalho do catequista. Era uma mocinha, parecia ter uns 16 anos, mas, depois, soube ter 19. Totalmente dedicada às crianças, agia como se ignorasse a minha presença, o que me deixou à vontade para admirá-la. Finalmente, seus olhos, duas turquesas, encontraram os meus. Na reunião de orientação que tivemos a seguir, observei-a melhor: era meiga, atenta, encantadora.
― A partir desse dia, retornei a qualquer pretexto. Nossas reuniões foram se tornando mais íntimas, ficávamos a sós numa saleta, sem mesa a nos separar, os joelhos quase se tocando e, depois de tratar de um ou outro assunto eclesiástico, nos alongávamos: ela fazia confidências e ouvia meus conselhos. Era delicioso. Eu pressentia o perigo, mas convencia-me de que tinha pleno domínio da situação. Um dia ela chegou visivelmente nervosa parecendo sem coragem para confessar um pecado. Precisei usar de toda minha experiência para fazê-la falar, quando o fez, contou estar apaixonada. Disse que ao vê-lo ficava tão alegre que tinha que se conter para não sair cantarolando; arrepiava-se com qualquer contato corporal, por mais ínfimo que fosse; pensava nele o dia todo e, à noite, faziam amor, em sonhos. Imaginei que falasse de mim, desejoso, até que num ímpeto ela se atirou em meu colo e me cobriu de beijos.
― O que veio depois você bem pode imaginar. Não devia ter me envolvido dessa maneira, Maria era virgem, agora está grávida. Na semana passada, inacreditavelmente, insisti para que fizesse um aborto. Fiquei atormentado. Estou atormentado.
— Devo lhe confessar que não era casto quando a conheci. Dou palestras e participo de simpósios por toda parte. Penso que a posição de destaque que normalmente me reservam, aliada a condição de “fruto proibido”, desperta a cobiça feminina. Na primeira vez que me deitei com uma mulher acordei abatido, sentindo-me imundo, indigno de voltar a celebrar missa. Com o tempo, a sensação passou, tive novos casos, outros religiosos tinham os seus.
— Mas desta vez não é apenas sexo casual: eu me envolvi, gerei um filho e, pior, tentei me livrar dele. Um leigo não avalia o significado da paternidade para um padre, ser partícipe no milagre da renovação da vida. Custo a crer que eu, fã confesso de Eça de Queirós, esteja revivendo a história do Padre Amaro quase dois séculos depois.
— O progresso mundial é vertiginoso porque se beneficia da transmissão de conhecimentos adquiridos — Aparteou o terapeuta. ― Mas o emocional humano desenvolve-se no ritmo lento da evolução das espécies. Enquanto a Igreja Católica exigir castidade, haverá padres Amaros.
— É compreensível que esteja atormentado. O prazer e a felicidade são incentivos naturais para geração e criação de filhos. Como regra geral, o que favorece a continuidade da espécie humana produz bem-estar e o que é contra, como o celibato e o aborto, causa angústia e depressão.
— Você sabe que está diante de duas possibilidades, sobre as quais, se me permitir, farei algumas considerações.
O padre assentiu com um leve movimento de cabeça e o psicólogo continuou:
― Para manter sua posição na Igreja, você pode optar pelo aborto e arcar com a dor moral resultante. Não será difícil fazê-la abortar, o fato de ser homem, mais velho e gozar de posição social privilegiada torna sua determinação quase irresistível para uma jovem como a Maria. A alternativa é abandonar a Igreja e se casar. Você vai perder status social, o que é negativo para sua felicidade, e ganhar uma família, o que é altamente positivo por uma simples razão evolutiva: nada melhor do que a família para criar filhos e preservar a espécie. No cômputo geral, acredito que a opção de se casar o fará mais feliz. Bem, restaria uma hipótese que não me parece factível nos dias de hoje: manter mãe e filho em segredo, escondidos de seu mundo, como faziam os antigos coronéis.
No dia seguinte o padre acorda às 5 horas da manhã, toma um banho frio, veste roupa caseira, pega o terço, ajoelha-se em uma almofada sobre o chão e pousa os cotovelos na cama distribuindo seu peso até ficar confortável e equilibrado. Reza silente, nada quer e nada pede, simplesmente repete as orações em monótona sucessão. O ritmo da respiração e o batimento cardíaco diminuem enquanto a mente se esvazia. O terço termina. Seu corpo permanece relaxado, imóvel, e a cabeça leve, o que não significa ausência de pensamentos, eles apenas nascem e passam suavemente, sem insistência dramática. Recordações normalmente perturbadoras desfilam docemente: dias de fome, de frio; a bicicleta de segunda mão que a mãe lhe deu; o primeiro beijo; estripulias no seminário, os castigos; as principais vitórias, o colega que salvou do afogamento, o doutorado obtido com louvor. Lembra-se dos dramas que ouviu em confissão e dos sacramentos que ministrou, principalmente de casamentos e batizados. O sentido deles conduz sua mente à intuição de Santo Agostinho: “ama et fact ut vis” — ama e faze como queres, ama e vai em frente ― reafirmando prerrogativa inalienável do amor a Deus e entre filhos de Deus. O padre sai do estado meditativo sereno, confiante de que sente por Maria o verdadeiro amor a que Agostinho se referiu.
Enquanto se troca para sair, pensa com entusiasmo: “Agora tenho muito que fazer, inclusive, comprar um par de alianças.”
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